Lia, Tico e o Mapa que Pigarreava
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Lia tinha um talento raro: se um objeto parecia escondido, era com ela que ele decidia “aparecer”. Por isso, quando ela entrou na biblioteca abandonada atrás da escola, os olhos brilharam como lanternas.
— Acho que aqui tem alguma coisa… bem antiga — ela sussurrou, abrindo uma prateleira cheia de pó.
Foi aí que viu um livro grande, com capa marrom e letras tortinhas. Não estava escrito “não toque”. Estava escrito quase nada, como se o próprio livro dissesse: “vai lá, curiosa!”.
Lia soprou o pó, puxou o livro e… plim!
Dentro dele havia uma folha dobrada que parecia papel… mas também parecia quente. Quando ela tocou, a folha estalou e soltou uma luz fraquinha, como a de vaga-lumes envergonhados.
Antes que Lia pudesse olhar melhor, uma sombra enorme fez “BUM” perto dela.
— Aiii! Eu estava só… chegando — disse uma voz grossa, mas atrapalhada.
Era um dragão.
Só que não um dragão assustador. Tico tinha escamas verdes, chifrinhos tortos e um rabo que parecia sempre tropeçar no próprio dono. Quando ele tentou “se apresentar” ficando de pose, a cauda escorregou e ele acabou sentado no chão.
— Eu sou Tico, guard… quer dizer… explor… quer dizer… dragão — Tico tentou rir, mas soltou um “puf” de fogo que apagou na própria fumaça.
Lia piscou.
— Você está… bem — ela disse, apontando para o fogo que não tinha chegado a lugar nenhum.
— Eu faço fogo com moderação! É para não queimar ideias — Tico respondeu sério, como se fosse um grande professor.
Lia mostrou o livro.
— Olha! Encontrei um mapa mágico.
O mapa deu uma risadinha discreta. Não era som de gente. Era som de papel feliz, como quando você raspa um giz no quadro.
E então, bem no meio da folha, apareceu um caminho desenhado com linhas brilhantes.
— “Floresta Encantada do Riso” — Lia leu. — E aqui diz… “Se tiver coragem, amizade e uma ideia criativa, o caminho mostra o tesouro”.
Tico se animou tanto que levantou as asas… e derrubou uma pilha de livros.
— Coragem eu tenho! Amizade… também! Ideia criativa… — ele olhou para o mapa como quem procura algo numa mochila — eu acho que consigo! Minha cauda ajuda!
Lia riu.
— Então vamos. Mas com cuidado. Sem derrubar a floresta inteira.
Tico fez uma careta pensativa.
— Combinado. Eu sou especialista em não derrubar… quase.
## A floresta que fazia cócegas
Quando atravessaram a entrada da Floresta Encantada do Riso, o mapa começou a pigarrear. Sim, pigarrear. A folha tremia e parecia dizer: “por aqui, por aqui”.
Os dois seguiram por um caminho de folhas brilhantes. De vez em quando, criaturas engraçadas apareciam como se fossem fãs da aventura.
Primeiro, surgiu uma dupla de cogumelos que conversava com vozinhas de “plim-plim”.
— Passa por cima? Ou passa por baixo? — cantaram.
— E se a gente passar por cima? — perguntou Lia.
— A gente vai espirrar! — responderam os cogumelos.
— Isso é ruim?
— Depende — disseram, piscando. — Se espirrar em vocês, vira… desenho.
Tico arregalou os olhos.
— Eu gosto de desenho! Eu já sou meio desenho… porque minha pata não sabe onde está.
Lia segurou o riso.
— Vamos por baixo então.
Eles passaram por baixo de uma fileira de cogumelos e ouviram uma explosão de “atchim!”. Um monte de estrelinhas desenhadas voou no ar, como se a floresta estivesse decorando o caminho.
— A floresta é muito boba — Tico comentou.
— Boba pode ser boa — Lia respondeu. — Olha como ela tá ajudando.
Mais adiante, vieram três bichinhos parecidos com esquilos, mas com orelhas de guarda-chuva.
— Para seguir, responda: qual é o nome do vento? — pediram.
Lia pensou.
— O vento… sopra.
Os esquilos deram uma volta em círculos.
— Quase! O nome do vento aqui é “Zás!”
— Então o vento é “Zás!” — Lia repetiu.
— Certo! Agora façam “Zás” juntos! — eles disseram.
Tico tentou.
— ZÁS! — ele gritou.
Só que junto com “Zás” saiu uma mini labareda.
— Oh! — os esquilos se esconderam atrás das orelhas.
Lia pigarreou para pensar rápido.
— Tico, usa o fogo como farol. Bem baixinho.
Tico ficou corado (dragões também ficam!) e fez um sopro pequenininho, como se estivesse apagando uma vela.
— ZÁS… bem… de leve — ele falou.
Os esquilos se aproximaram.
— Do jeito certo! Podem seguir.
O mapa então brilhou ainda mais.
## O desafio do tronco que falava
Depois de um tempo, eles chegaram num tronco enorme atravessando o caminho. Só que o tronco estava com uma expressão engraçada, como se fosse um rosto.
— Eu sou o Tronco Falante! — disse o tronco. — Para passar, preciso de uma palavra que deixe a floresta feliz.
Lia se aproximou e perguntou:
— Qual palavra?
O tronco pensou (ou fez “cric cric”, que era o jeito dele pensar).
— “Coragem”.
Tico levou a pata ao peito.
— Eu conheço! Cor…a…gem… — ele soletrou, tentando lembrar.
— Eu posso ajudar — Lia disse, sorrindo.
Ela apontou para uma folha pequena no chão.
— A floresta gosta de símbolos. Se a gente escrever a palavra com folhas, o tronco entende.
Os dois juntaram folhinhas verdes, algumas amarelas e até uma vermelha, que parecia um pontinho de alegria.
Formaram a palavra: CORAGEM.
— Pronto! — Lia disse.
O tronco emitiu um “ploc!” e virou uma ponte.
— Agora vocês merecem o caminho seguinte — disse, orgulhoso.
Tico abriu a boca.
— Eu também sei escrever! Só que meu risco parece… pegadas.
— Pegadas são um tipo de escrita — Lia brincou.
E assim, eles atravessaram.
## Quando o mapa se perdeu… de propósito
Por um instante, o mapa ficou quieto.
— Estranho — Lia falou. — Ele sempre pigarreia.
Tico olhou para o mapa e viu uma coisa curiosa: as linhas do caminho estavam virando, girando e… escapando.
— Ele está se escondendo! — Tico disse.
Lia arregalou os olhos.
— E por quê?
A folha então mostrou uma nova frase, surgida como mensagem de luz:
“Para achar o tesouro, não corram. Pensem juntos.”
— Ah, então o mapa quer… paciência — Lia disse, sentando numa pedra que parecia almofada.
Tico também sentou, mas quase escorregou. Quando conseguiu equilibrar o rabo, ele fez uma expressão muito séria.
— Eu pensei junto — ele afirmou.
— Pensei… junto com você — Lia corrigiu, apontando.
Os dois ficaram olhando ao redor.
Foi então que perceberam: havia marcas de estrelinhas no chão, só que elas não eram pistas para correr. Eram pistas para observar.
Seguindo as estrelinhas, encontraram uma pequena clareira com um espelho d’água.
No espelho, aparecia uma forma de coração feita de luz.
Só que o espelho d’água dizia, com voz de água:
— Para atravessar, precisam inventar um jeito de rir sem que a floresta espirre fogo, bolo ou… eu não sei… dragão.
Lia coçou a cabeça.
— Inventar… eu posso!
Tico levantou a mão.
— Eu também! Minha criatividade está no modo “desastrado”.
— Então vamos usar isso — Lia propôs.
Eles fizeram uma brincadeira: Lia contou uma piada curtinha, bem do tipo que não dá trabalho.
— Sabe por que o livro ficou feliz?
— Por quê? — perguntou Tico.
— Porque ele abriu… o caminho!
Tico tentou segurar o riso, mas soltou:
— HA! — e fez um som que parecia gargalhada de panela.
O espelho d’água espirrou uma nuvenzinha de névoa e desenhou no ar uma ponte de risadas.
— Funcionou! — Lia comemorou.
— Eu sabia! — Tico disse, emocionado. — Eu não sabia como, mas eu sabia que daria!
A ponte de risadas virou caminho.
E o mapa voltou a pigarrear, feliz como antes.
## O tesouro que era mais do que ouro
Quando chegaram ao centro da clareira, encontraram um baú em cima de um pedestal de raízes. Mas o baú não tinha chave.
— Como abre? — Lia perguntou.
Tico chegou perto.
— Talvez… seja por força? Ou por fogo?
O baú balançou e respondeu:
— Nenhuma fechadura. Eu abro quando vocês mostram coragem, amizade e criatividade.
Lia pensou rápido. O mapa também brilhou, como se confirmasse.
— Então é agora — ela disse.
Tico fez uma pose. A pose durou dois segundos, porque ele escorregou e quase caiu.
Lia segurou a pata dele e ajudou.
— Viu? Coragem não é não errar. É tentar de novo — ela falou.
Tico sorriu.
— Amizade é quando você segura minha pata mesmo quando meu rabo faz bagunça — ele disse.
Lia assentiu.
— E criatividade é usar ideias diferentes.
Os dois olharam para o baú, e Lia teve uma ideia.
— Vamos fazer um “cartaz de amizade” usando folhas, pedras e o nosso próprio riso.
Tico abriu as asas (com cuidado dessa vez) e soprou uma fumaça leve que virava bolinhas brilhantes, como se fossem tintas.
Lia escreveu com pedrinhas:
“CORAGEM + AMIZADE + CRIATIVIDADE”.
As letras pareciam mexer.
O baú estalou.
E abriu.
De dentro saiu… não ouro.
Saiu uma luz quente, um “pó de risadas” e uma pequena caixinha com três sementes brilhantes.
— Essas sementes crescem árvores que contam histórias engraçadas — disse o mapa, com voz de papel feliz. — E as histórias dão coragem para quem precisa.
Tico ficou de olhos arregalados.
— Então o tesouro é… o que faz as pessoas rirem e acreditarem?
— Sim — Lia respondeu. — E isso também é magia.
Eles plantaram as sementes na terra da clareira. No fim do dia, uma árvore pequena apareceu, com folhas em formato de risos.
## Volta para casa (com mais coragem no bolso)
Ao saírem da floresta, a árvore ainda parecia jovem demais para crescer tão rápido, mas o mapa explicou:
— Não é sempre que a magia precisa de muito tempo. Às vezes ela precisa só de vocês.
Tico caminhava com passos mais firmes.
— Eu não era tão bom assim no começo… mas agora eu consegui — ele disse.
Lia sorriu.
— Você era bom antes. Só estava atrapalhado.
— Atrapalhado é quase um superpoder! — Tico falou, rindo.
Lia e Tico voltaram à biblioteca. O livro antigo parecia mais limpo, como se guardasse a aventura com carinho.
Quando Lia fechou a capa, o mapa sumiu dentro das páginas.
— E agora? — Lia perguntou.
Tico encostou a cabeça na porta da biblioteca, como se sentisse saudade do lugar.
— Agora a gente visita a floresta de vez em quando… e deixa a amizade continuar.
E assim, Lia aprendeu algo bem importante: coragem não é ficar sem medo, é avançar mesmo assim. Amizade é ajudar o outro quando ele escorrega — inclusive quando o escorregão é de dragão. E criatividade é fazer novas ideias nascerem, do jeito mais divertido possível.
Naquele dia, a floresta encantada do riso ganhou mais histórias… e Lia e Tico ganharam uma amizade que brilhava, mesmo quando o mapa pigarreava baixinho.

