Fantasia

O Dragão do Departamento de Multas Encantadas

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Imagem da história: O Dragão do Departamento de Multas Encantadas
No Reino de Burocratínia, toda magia tinha que passar por três etapas obrigatórias: escrever o formulário em pergaminho timbrado, carimbar com uma pena que mordesse a própria tinta e, por fim, esperar a aprovação do Conselho dos Feitiços (que demorava tanto quanto uma soneca de unicórnio). Foi nesse lugar que Lili, uma aprendiz de bruxa recém-saída da torre (e ainda com o cheiro de biblioteca), descobriu o verdadeiro monstro do reino: o Dragão Trovador Thimóteo. — Dragão? — ela perguntou para o carteiro, que parecia ter sido desenhado com pressa. — Mas eu achei que dragões viviam com ouro e fogo. — Ah, ele vive com as duas coisas — o carteiro respondeu. — Só que o ouro é só para pagar multas e o fogo… bem, é para queimar os recursos negados. Lili foi até a Praça Central, onde um letreiro torto anunciava: “DEPARTAMENTO DE MULTAS ENCANTADAS — AGENDAMENTOS ATÉ 2032”. Lá dentro, o ar cheirava a papel antigo e arrependimento. No balcão, um dragão enorme se equilibrava em uma cadeira que obviamente não fora feita para dragões. Cada vez que ele mexia a cauda, os carimbos tremiam como se estivessem com medo. Thimóteo estava tentando preencher um formulário com três canetas ao mesmo tempo. Ele parecia muito determinado, mas também… um pouco desgovernado. — Eu juro que desta vez eu sigo o procedimento — murmurou o dragão, enquanto a caneta da esquerda virava uma minhoca de tinta. — Minhoca? — Lili piscou. — É a magia de correção automática. Se o texto ficar errado, ela vai embora e finge que nunca existiu. É uma política nova. O Conselho tá obcecado com “evitar inconsistências”. Lili inclinou a cabeça. — E por que você está… fazendo isso sozinho? Cadê o resto do departamento? O dragão soltou um suspiro que quase apagou a lâmpada do teto. — Todo mundo entrou em greve por causa do novo Decreto de Feitiços Pagos. Agora, quando alguém tenta conjurar algo sem protocolo, a magia volta contra o conjurador. Literalmente. Já teve gente transformada em catálogo. Antes que Lili pudesse reagir, uma rajada de “PÁ!”, “ZIM!”, “CLAC!” explodiu em algum lugar do fundo do escritório. Um carimbo caiu com força e deixou uma marca enorme no chão: “RECURSO NEGADO”. E, como se fosse um reflexo, a porta se abriu sozinha. — O próximo! — gritou uma voz feita de papéis amassados. Um senhor minúsculo, trajando um terno que claramente não coube nele, surgiu carregando uma pilha absurda de documentos. — Eu trago a sua solicitação de autorização para uma autorização — ele disse, ofegante, e então olhou para Lili com expectativa profissional. — Você é a nova bruxa do programa? — Eu… eu sou só uma aprendiz — Lili respondeu. — Eu nem sei conjurar direito sem tropeçar na própria varinha. — Perfeito! — o senhor minúsculo sorriu. — Aprendizes tropeçam com mais frequência, então geram uma quantidade excelente de relatórios. O Conselho adora dados. O dragão Thimóteo ergueu a cabeça, alarmado. — Não, não, não! Isso é um sistema de punições. Se ela for encaminhada, vai acabar virando… bem, pior que um catálogo. — Pode dizer “pior que um catálogo” como se isso fosse uma ameaça — Lili tentou. — É uma ameaça. Já vi um cara virar “nota fiscal falante”. Ele pediu pimenta e recebeu recibo. O senhor minúsculo tossiu. — Senhores, por favor. Esta é uma reunião séria. Temos que manter a ordem documental. A ordem documental, porém, era como um prato de macarrão num terremoto: tudo estava preso a alguma coisa e ao mesmo tempo prestes a cair. Lili, que tinha um dom natural para resolver problemas por pura teimosia, apontou para o balcão onde havia um formulário em branco. — E se a gente… consertar o sistema? — Você sabe quanto tempo leva para consertar um formulário? — o dragão perguntou. — Quanto? Thimóteo coçou a barba (que parecia feita de burocracia em forma de pelos). — Em geral, entre três dias e uma era. Depende se alguém escreve “magia” com G ou com “g de graça”. Lili agarrou a caneta mais próxima. — Então vamos fazer com uma magia de verdade. Não “mágica de protocolo”. Uma magia sem carimbo. Uma magia que… carrega a responsabilidade nas costas. O senhor minúsculo riu. — A senhora está sugerindo… feitiçaria ilegal? — Sim — Lili disse, com a inocência de quem não leu as regras. Thimóteo fechou os olhos e fez a famosa cara de dragão prestes a aceitar uma aventura por tédio. — Eu também sou contra a burocracia… mas eu sou pago para ser contra de forma respeitosa. Ele bateu a cauda, que “clonc” contra a parede, e o balcão respondeu com um leve tremor. Em seguida, um compartimento secreto se abriu: lá dentro havia uma varinha menor, com uma placa: “PROIBIDA, MAS NECESSÁRIA”. — Essa varinha foi esquecida antes do Decreto de Feitiços Pagos — Thimóteo explicou. — O Conselho não percebeu que ela existe porque ela tem um feitiço de camuflagem… de papelada. Lili pegou a varinha e sentiu um calor que não era exatamente fogo nem exatamente alegria. Era mais como… coragem com desconto. — Tá — ela disse. — Vamos salvar o reino. — Vamos? — o senhor minúsculo perguntou, já suando. — Vamos — Thimóteo confirmou, tirando um óculos redondo que parecia ter sido emprestado a um bibliotecário. — Mas com humor. Toda revolução precisa de piada, senão vira reunião. A dupla e o senhor minúsculo seguiram até o Salão das Maldições, onde a magia errada era armazenada em frascos etiquetados: “Transforma em Relatório”. “Causa Tosse de Carimbo”. “Conjura Pânico em Forma de Envelope”. No centro do salão, havia um mecanismo grande, feito de rodas e carimbos, que girava sem parar. — Esse é o Motor de Retaliação — explicou Thimóteo. — Ele identifica qualquer feitiço sem protocolo e devolve como se a magia fosse um boomerang administrativo. Lili aproximou-se. — Então… se eu inserir um protocolo verdadeiro. — Um protocolo verdadeiro? — o senhor minúsculo arregalou os olhos. — Sim — Lili sorriu. — Um protocolo que não seja uma armadilha. Ela apontou a varinha para o motor e disse, bem alto: — Feitiço de Responsabilidade! Conceda licença para a criatividade… e descarregue as multas para onde elas fazem sentido. A varinha vibrou. Os frascos começaram a tremer. E, do nada, surgiu uma pequena nuvem com formato de caracol, carregando um cartaz: “MULTAS ENCANTADAS DEVOLVIDAS PARA O CONSELHO.” — Hã? — Lili perguntou. — Isso… é o que eu chamo de “administrar com humor” — Thimóteo disse, orgulhoso. O motor apitou. As rodas giraram mais rápido, e a magia que antes voltava contra os conjuradores agora começou a procurar o verdadeiro responsável: o próprio Conselho. Uma fileira de carimbos voou pelo salão como pássaros burocráticos, carimbando portas invisíveis e revirando gavetas onde existiam “planos de restrição criativa”. Lá no topo do castelo, o Conselho finalmente percebeu. — Quem fez isso?! — gritou uma voz, seguida por um estampido. — Nós! — Lili respondeu, sem saber se era permitido responder para vozes distantes. — Com autorização de quê? — perguntou outra voz, mais irritada. — De… necessidade — Thimóteo disse, com a dignidade de quem também estava improvisando. Em poucos minutos, o caos burocrático começou a se reorganizar. O mecanismo do Motor de Retaliação desacelerou, como um animal que reconheceu sua dona. E então aconteceu o melhor: A magia “sem protocolo” passou a não ser punida. Ela passou a ser registrada em um novo tipo de formulário: “Relatos de Improvável Criatividade”. O motor não desapareceu; apenas aprendeu a lamber o próprio erro e transformar em documento útil. O senhor minúsculo caiu sentado. — Mas isso… isso vai mudar tudo! — Vai — Lili disse, respirando aliviada. — Vocês não precisam mais converter pessoas em catálogos. — Precisam sim — Thimóteo interrompeu, sério como dragão com crachá. — Só que agora os catálogos… podem falar poesia. O Conselho, que tinha caído numa rede de multas devolvidas, tentou resistir. — Isso é inaceitável! — berraram os conselheiros. Lili abriu um sorriso que já tinha feito inimigo antes. — Vocês mandam no mundo de vocês. Nós mandamos no nosso jeito de fazer magia. Thimóteo assentiu, e, para provar que era um dragão de boa índole (embora muito desajeitado), ele tirou do bolso um carimbo novo. O carimbo dizia: “APROVADO COM PIADA”. E foi aí que o Reino de Burocratínia descobriu que a burocracia não era eterna. Ela só precisava de uma coisa que quase ninguém ensinava: Humor suficiente para parar de morder todo mundo. Naquela noite, Lili voltou para a torre com um pequeno formulário em mãos, devidamente carimbado e rabiscado com o desenho de uma fogueira feliz. Thimóteo foi designado como “Estagiário de Conciliação Mágica”, o que significava que ele passaria o resto da vida tentando corrigir formulários sem transformar canetas em minhocas. — Vai ser difícil — ele confessou. — Eu sei — Lili respondeu. — Mas pelo menos agora, se der errado… vira história. E, no reino inteiro, pela primeira vez em séculos, a magia soou menos como ameaça e mais como risada — um feitiço que não precisava de permissão para existir.

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